Sobre nossa circulação.

O VísCera Teatro, em seu terceiro ano de existência, optou por iniciar o processo de circulação do espetáculo “A Grande Parada (ou o que ainda resta dela)” – projeto oriundo de nossa formação na Carona Escola de Teatro com a montagem de cinco cenas do texto “Terror e Miséria no III Reich ” de Bertolt Brecht, apresentada na VIII mostra Carona de teatro em 2008. Com recursos adquiridos via Fundo Municipal de apoio à Cultura, conseguimos circular com nossa produção, construída através de meios próprios e ajuda de parceiros como a Cia Carona de Teatro e o Grupo Detalhe de Indaial, além de todas as pessoas que passaram pela história do grupo e contribuíram para sua viabilidade.

O projeto foi realizado durante o período de 01 de março a 31 de maio de 2011 em 5 bairros do município de Blumenau (Itoupava Central, Fortaleza, Badenfurt, Progresso e Velha), totalizando 10 apresentações. O grupo realizou conversas com as pessoas ao término de cada sessão, momentos que permitiram uma aproximação entre atores e espectadores e conversas sobre teatro, arte, história, violência, discriminação, fome, condições de trabalho, nossa cidade…

“De onde vem a discriminação?”, perguntavam as estudantes, o grupo dialogava… você sabe a resposta? “Tem um lugar pra mim aí?” … haveria lugar pra ela ali? Que tipo de política cultural precisamos para que as pessoas possam estudar o que elas quiserem? Quanto tempo elas tem pra isso? Tem lugar pra mim aqui? Onde arte e vida se alcançam na escola? Como estão nossas escolas? Como as pessoas que constroem cotidianamente este espaço são compreendidas?

Nossas reflexões não conseguem atingir a totalidade dos desafios que o projeto de circulação nos impôs, assim, partimos da reflexão de Walter Benjamin em sua conclusão sobre o teatro épico e seus desafios:

 “Mas, se a torrente das coisas se quebra no rochedo do assombro, não existe nenhuma diferença entre uma vida humana e uma palavra. No teatro épico, ambas são apenas a crista das ondas. Ele faz a existência abandonar o leito do tempo, espumar muito alto, parar um instante no vazio, fulgurando, e em seguida retornar ao leito.” (Walter Benjamin. Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht in Magia e técnica, arte e política, São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 90)

Em meio a nosso assombro, tentaremos ser propositivos em relação às perguntas apresentadas e nossa vivência durante a temporada que passou. Os objetivos operacionais foram atingidos com êxito. A meta de alcance de apresentações em cinco bairros foi efetivada com tempestividade. A média de público foi positiva. Os debates com a comunidade suscitaram momentos de mútua relação.

Contudo, consideramos que a quantidade insuficiente de verbas e planejamento – tanto em relação ao Fundo Municipal de apoio à Cultura, quanto em relação ao desenvolvimento de infraestrutura comunitária – constituem um entrave importante para a efetiva ação cultural. A mediação, divulgação e apresentação – em termos gerais – dependem da ação dos grupos e da postura das direções comunitárias. Agradecemos aos trabalhadores das escolas e comunidades por onde passamos, sem eles, não teria sido possível.

Existem demandas reais nos bairros, nosso trabalho foi bem recebido, muitas escolas e grupos estão com suas portas abertas. Mas, com os recursos e a ação efetuadas até o momento, o trabalho de construção de Políticas Públicas de Cultura parece prejudicado. As críticas recorrentes acerca desta pauta apenas reforçam a crise pela qual passamos. Dos resultados das conferências municipais de cultura só vemos rascunhos e promessas – e alguns processos criminais.

Na área de educação as dificuldades não são menores. Os professores têm falado sobre isso, eles protagonizam uma ação histórica nesse momento, esperamos que suas reivindicações sejam atendidas, no mínimo. Acreditamos que trabalhadores e estudantes devem possuir os recursos e as relações necessárias não só para receber, mas para produzir arte.

Mediante nossa compreensão acerca de Blumenau nesse momento, parece-nos interessante a ironia de Bertolt Brecht: “Não se deve ser crítico demais / Entre sim e não / Não é tão grande a diferença / Escrever no papel em branco / É uma coisa boa, e também / Dormir e comer à noite / A água fresca na pele, o vento / As roupas agradáveis / o ABC / A defecação / Falar de corda em casa de enforcado / Não é apropriado / […] Ah / Quem é capaz de imaginar / Um céu de estrelas / Esse / Bem poderia calar a boca”.

A Fundação Cultural de Blumenau continua a ruir. Os estudantes insistem em voltar pra casa. Os professores lutam por educação. Nós continuamos aprendendo-fazendo teatro. Juntos, vamos tropeçando entre nossas vidas turbulentas de determinações e de boletos, de esperança e desespero. Mas acreditamos, sobretudo, que em cada encontro – entre nós, entre as vísceras, ou entre o mundo, entre a arte, entre as pessoas – aí é que reside nossas possibilidades mais humanas, mais promotoras de uma arte que seja vida.

Cleiton Rocha – publicado no jornal Expressão Universitária , ano 3 n. 22 de julho de 2011.

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Circulação 2011 – Bairro da Velha

Um mapinha…

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Temporada Municipal 2011 – Blumenau

Confira as datas e locais de apresentação do VísCera Teatro nos bairros de Blumenau:

Itoupava Central – Escola Emílio Baumgart

29/04 Sexta-feira – 19:30

30/04 sábado – 19:30

Ingressos a venda com o grupo na escola no dia da apresentação.

Toda comunidade está convidada.

Fortaleza – Igreja São Francisco

05/05 Quinta-feira

Primeira Sessão 19:00

Segunda Sessão 21:00

Ingressos a venda com o grupo na igreja no dia da apresentação.

Toda comunidade está convidada.

Badenfurt – Escola Wigand Gelhardt

06/05 Sexta-feira

Primeira Sessão 19:00 – alunos da escola

Segunda Sessão 20:30 – apresentação aberta a comunidade

Ingressos a venda com o grupo na escola no dia da apresentação.

Garcia – Escola Padre José Maurício

12/05 Quinta-feira  19:30

13/05 Sexta – 9:45 manhã

Nesta escola as apresentações serão direcionadas somente aos alunos.

Velha – Escola Professora Zulma Souza da Silva

27/05 sexta-feira 19:30

28/05 sábado – 19:30

Apresentações abertas à comunidade

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Circulação Municipal 2011 – Blumenau

Nos meses de abril e maio o VísCera Teatro realizará seu primeiro trabalho de circulação em Blumenau.

Chegamos ao terceiro ano do grupo com muita vida pulsando, com o mundo virando e o corpo se jogando ao caos que é pensar a vida e a arte.

O espetáculo “A Grande Parada” está ficando maduro, está ficando cheio de dúvidas, está se construindo sempre.

Em breve, nosso itinerário blumenauense estará publicado aqui!

Foto de Divulgação por Leo Laps

 

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Boa notícia – VisCera Teatro aprova projeto no Fundo Municipal de Apoio a Cultura

O GRUPO VISCERA TEATRO É CONTEMPLADO PELO FUNDO MUNICIPAL DE APOIO A CULTURA DE BLUMENAU, EDIÇÃO 2010.

O projeto prevê a circulação do espetáculo A Grande Parada por cinco comunidades blumenauenses, entre março e maio de 2011. O valor aprovado é de R$ 10.000,00.


O projeto parte da premissa que o Fundo Municipal é o grande mecanismo local de fomento a arte e cultura, contribuindo para a cidadania cultural dos munícipes. Em se tratando de mecanismos de financiamento, este é a única opção local.

A idéia do projeto é:

a) Para distribuir o produto cultural ao máximo possível de pessoas;

b) Tornar conhecido os grupos, artistas, agentes e produtores culturais envolvidos eticamente com a cidadania cultural;

c) Permitir que artistas, agentes, produtores e grupos culturais possam dedicar-se cada vez mais aos seus intentos artísticos e criativos;

d) Gerar reflexão e debate sobre temas do mundo contemporâneo através de produtos e bens culturais.

O projeto prevê duas apresentações em cada um dos cinco bairros de Blumenau selecionados. Para ampliarmos as conquistas dos grupos e segmentos culturais locais e, quiçá, ampliar sua independência e sustentabilidade, é primordial que as comunidades da cidade acreditem na produção cultural daqui. Para isso, precisam conhecer o que se produz. Partimos do pressuposto que temos de ir onde o povo está. Entrar na intimidade do bairro.

O espetáculo, com duração de 45 minutos, mergulha no cotidiano do povo alemão durante o regime nazista e encarna o terror e a miséria que margeavam o ufanismo de um tempo inglório para os seres humanos. Através do corpo dos atores e suas histórias, propomos uma visão ao alerta de Brecht acerca da luta contra toda forma de dominação e suas máquinas de propaganda e submissão.

O texto, adaptação de obras de Bertolt Brecht, tem a direção de Pepe Sedrez, atuação de Cleiton da Rocha, Jean Massaneiro, Lu de Bem, Maicon Keller e Sabrina Marthendal. É interessante perceber, nessa lista de nomes, a participação de atores de outros grupos teatrais de Blumenau e região, convidados pelo VisCera Teatro a se juntarem nessa empreitada. É uma opção do grupo pela troca e intercâmbio entre atores e atrizes, visando o constante aperfeiçoamento.

O trabalho conta com o apoio da Companhia Carona de Teatro, que nos empresta a atuação da atriz Sabrina Marthendal, a construção gráfica e pesquisa em vídeo de Leo Kufner e a direção de Pepe Sedrez – e ainda com o ator convidado Jean Massanero, do grupo Detalhe de Indaial. O espetáculo comunica o contemporâneo épico, sintetizando novas formas de criação, ao mesmo tempo em que busca aproximar- as platéias ao universo de Brecht, que é o da realidade de um tempo que jamais deve ser esquecido e nos propõe sempre a analise do presente e do futuro.

O épico, o político e o irônico desta obra são tomados pelos atores e atualizados a partir da vida que pulsa de cada corpo-em-arte. A direção interage o Teatro Épico com a Estética e Atuação Contemporânea criando um cenário onde a materialidade da vida é evidenciada pelas suas próprias máscaras. A fatal necessidade de sobrevivência, o medo, a censura, a farsa e a manipulação permeiam esse itinerário entre a resignação e a resistência.

Com este trabalho o grupo aceita o desafio de mergulhar no passado e compreender seu chamado para a atualidade. Estudando a criação cênica e as possibilidades artísticas, busca-se, também, a conexão com a vida coletiva e com a História construída pelos humanos. Buscando abstrair do mundo e refleti-lo olhando de cima – o distanciamento que une a todos – e, ao mesmo tempo, de dentro de nós mesmos que somos também, cada outro ao lado e ao longe num mundo que perde fronteiras.

Todo esse caminhar se deve ao fato de que os integrantes, Cleiton da Rocha, Lu de Bem e Maicon Keller, provenientes de diferentes mundos do trabalho (bancário, psicóloga e professor de História), encaram o teatro como desafio de conhecer o corpo, seus limites e possibilidades através das linguagens cênicas. Isso requer muito estudo teórico e aplicação prática através de exercícios e treinamentos. Neste ano, por exemplo, dois integrantes participaram dos Cursos do LUME TEATRO, na Unicamp/SP.

O projeto A Grande Parada em Circulação foi encaminhado via pessoa física devido ao fato de que o Grupo VisCera Teatro não possuí ainda estatuto jurídico, estando em vias de tornar-se uma Associação sem fins lucrativos.

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Fotos A Grande Parada

Todas as fotos a seguir tem o crédito de Léo Laps, que numa noite clicou a apresentação do VisCera Teatro. Apreciem as imagens. Em julho, mais uma sessão.

Crédito: Léo Laps

Crédito: Léo Laps

Crédito: Léo Laps

Crédito: Léo Laps

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TEMPORADA BLUMENAUENSE DE TEATRO APRESENTA “A GRANDE PARADA”, DO VISCERA TEATRO.

 “A Grande Parada” do VisCera Teatro participa da Temporada Blumenauense de Teatro, entre os dias 16 e 20 de junho, na Fundação Cultural de Blumenau. As apresentações começam sempre às 20h e o ingresso custa R$ 10,00 ou R$ 5,00 (meia entrada e filipetas). A promoção é da Temporada Blumenauense de Teatro – Associação Blumenauense de Teatro e tem o apoio da Fundação Cultural de Blumenau. Recomendável para maiores de 14 anos.  

Foto: Léo Laps

  

 O VísCera Teatro mergulha no cotidiano do povo alemão durante o regime nazista e encarna o terror e a miséria que margeavam o ufanismo de um tempo inglório para os seres humanos. Através do corpo dos atores e suas histórias, propomos uma visão ao alerta de Brecht acerca da luta contra toda forma de dominação e suas máquinas de propaganda e submissão.  

 O texto, adaptação de obras de Bertolt Brecht, tem a direção de Pepe Sedrez, atuação de Cleiton da Rocha, Jean Massaneiro, Lu de Bem, Maicon Keller e Sabrina Marthendal, a produção de Adélia Eccel e Márcio Cubiak.  

 É interessante perceber, nessa enorme lista de nomes, a participação de atores de outros grupos teatrais de Blumenau e região, convidados pelo VisCera Teatro a se juntarem nessa empreitada. É uma opção do grupo pela troca e intercâmbio entre atores e atrizes, visando o constante aperfeiçoamento.  

 Com o apoio da Companhia Carona de Teatro, que nos empresta a atuação da atriz Sabrina Marthendal, a construção gráfica e pesquisa em vídeo de Leo Kufner e a direção de Pepe Sedrez – e ainda com o ator convidado Jean Massanero, do grupo Detalhe de Indaial, comunica o contemporâneo épico, sintetizando novas formas de criação. Buscamos aproximar-nos ainda mais do universo de Brecht, que é o universo da realidade de um tempo que jamais deve ser esquecido e nos propõe sempre a analise do presente e do futuro.  

 O épico, o político e o irônico desta obra são tomados pelos atores e atualizados a partir da vida que pulsa de cada corpo-em-arte. A direção interage o Teatro Épico com a Estética e Atuação Contemporânea criando um cenário onde a materialidade da vida é evidenciada pelas suas próprias máscaras. A fatal necessidade de sobrevivência, o medo, a censura, a farsa e a manipulação permeiam esse itinerário entre a resignação e a resistência.  

 Com esta apresentação o grupo aceita o desafio de mergulhar no passado e compreender seu chamado para a atualidade. Estudando a criação cênica e as possibilidades artísticas, busca-se, também, a conexão com a vida coletiva e com a História construída pelos humanos. Buscando abstrair do mundo e refleti-lo olhando de cima – o distanciamento que une a todos – e, ao mesmo tempo, de dentro de nós mesmos que somos também, cada outro ao lado e ao longe num mundo que perde fronteiras.  

 

   

Foto: Léo Laps

  

Sinopse Fragmentos cotidianos de uma realidade de tensão violenta. Corpos que expandem seu medo e sua audácia em um ambiente onde o controle visa apoderar-se da vida. A grande Parada – criação a partir da obra de Bertolt Brecht – vem a público unindo o Teatro Épico às formas de expressão contemporânea na Arte. Imerge na vida que pulsa no medo e na resistência. Em cena – opressores e oprimidos, ingênuos e traídores, soldados e operários – encontram-se em meio ao terror materializado pela ideia de um povo calado, um reino sem liberdade e um rei sem razão. A representação de cenas vividas pelo povo entre 1933 e 1938 na Alemanha, a cenografia contemporânea e os recursos de mídia permitem um olhar no processo histórico sob a Estética da Arte e sua ideologia de transformação.  Recomendável para maiores de 14 anos.  

 Ficha Técnica 

Texto: Adaptação por VísCera Teatro da obra Terror e Miséria no III Reich de Bertolt Brecht 

Direção: Pépe Sedrez. 

Atuação: Cleiton Rocha 

Jean Massanero 

Lu de Bem 

Maicon Keller 

Sabrina Marthendal 

Participação especial: Gika Voigt 

Concepção de Cenografia 

Pépe Sedrez 

Execução de Cenografia 

Cleiton Rocha / Jean Massanero / Maicon Keller 

Pesquisa de Figurinos 

Adélia Eccel / Lu de Bem / Sabrina Marthendal 

Figurinos 

VísCera Teatro 

Trilha Sonora 

Gika Voigt 

Iluminação 

Pépe Sedrez 

Maquiagem 

Adélia Eccel / Pépe Sedrez 

Arte Gráfica 

Cleiton Rocha 

Fotografia 

Leo Laps 

Edição de Vídeo 

Leo Kufner / Sabrina Marthendal 

Produção Executiva 

Adélia Eccel / Márcio Cubiak 

Produção Geral 

VísCera Teatro 

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Políticas Culturais e Blumenau

Políticas Culturais e Blumenau[1].

Márcio José Cubiak[2]

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Esta é uma contribuição ao debate sobre políticas culturais em Blumenau que rechaça o conceito de arte e cultura dominante em nossa cidade. Quero focar nos desafios e nas oportunidades que Arte e Cultura podem gerar, simbólica e economicamente, quando trabalhadas de forma sistêmica, como política de estado, partindo da diversidade.

Estamos participando de um momento em que os segmentos culturais exigem a garantia da cultura como direito fundamental a ser gozado. Todos os dias, global e localmente, novas identidades surgem e demandam legitimidade. E como os Direitos são construções históricas, resultado das relações de poder e da luta de classes em cada época, é necessário entender que não há imutabilidade: todas as culturas e todas as identidades sofrem impactos cotidianos e, ao mesmo tempo, geram outros.

Por exemplo, o impacto e as possibilidades nascidas a partir dos novos meios de comunicação e a troca de informações e conteúdos a partir da Internet. Blogues, redes sociais, portais de notícia e projetos colaborativos são exemplos. Uma idéia circula e acaba plantada em outro tipo de solo, germinando. Além disso, cito como exemplo, a informação trazida pelo IBGE (2008) que mais de 40% dos habitantes desta cidade são migrantes que vindos de outras partes e muitas vezes engrossam as periferias e bairros mais distantes, trazendo outros personagens, novas demandas.

Incluo, ainda, a necessidade de se repensar o conceito de crescimento econômico e de desenvolvimento regional, a partir da falência do modelo catarinense, agregando preocupações sociais e ambientais, que são temas e reflexões de pesquisadores em busca de alternativas justas e equilibradas, em oposição a obsessão burguesa pelo crescimento e lucro a qualquer custo, desconsiderando os impactos gerados.

O que esses impactos trazem de novo, para a cidade? Como os artistas, produtores, comunidade e poder público encaram essas transformações, como oportunidade ou perigo?

Nesta reflexão procuro enfatizar que um discurso pseudo-antropológico sobre a cultura local é privilegiado. O privilégio pressupõe que, numa outra ponta, alguém esteja em desvantagem. Nesta disputa (sim, por que há forças distintas e conflitos), o teuto-brasileiro tem força e dinheiro a sua disposição. É preciso vender a saga dos imigrantes como pacote turístico. As forças industriais e comerciais da cidade aliciam a classe política, que acata com carinho, as solicitações para que hotéis estejam lotados, ou que as toalhas blumenauenses possam ser vendidas aos milhares por que são feitas na Europa brasileira.

Vender a cidade alemã, que acaba sendo cenográfica e irreal, gera lucros aos cofres municipais, é excelente negócio e poderoso diferencial entre a luta das marcas e empresas. A contrapartida é paga pelos sujeitos e coletivos, cujas reivindicações são secundárias e invisíveis. Os nordestinos, os paranaenses, gaúchos, os negros, as mulheres, as mil facetas da juventude, os gays, essa ampla maioria da população, é silenciada restando a opção do entretenimento no Shopping Center ou das ações do seu respectivo gueto.

As administrações municipais vêm dificultando a vida dos artistas. Nos últimos 14 anos, muitas semelhanças e diferenças. Porém, é fato: faz muito tempo que Blumenau não tem um governo que leve a sério o desenvolvimento cultural a partir da diversidade, utilizando-se de políticas públicas. Cada governo esforça-se em deixar uma marca, simplificando tudo num plano de governo. O prefeito Kleinubing prefere ter sua gestão marcada pelo funcionamento do Fundo Municipal de Apoio a Cultura, por exemplo, mesmo que tais recursos sejam insuficientes para a demanda local.

O fato novo, para artistas e produtores, esta na urgência em romper com uma dependência simbólica em torno da FCBlu. Como? Criando e fazendo circular.  A obra do artista precisa ser exposta a outros olhares, expondo-se ao controverso. O artista precisa refletir sobre o sentido de sua criação. Ele deve se associar seja com outros artistas, produtores ou a comunidade. Aliás, o apoio da comunidade é fundamental. Enquanto os Pontos de Cultura trabalham a diversidade a partir da iniciativa de artistas ao redor do Brasil, Blumenau ainda não tem nenhum implantado. Somente agora, duas iniciativas foram aprovadas, representando mais de R$ 350 mil reais em investimentos culturais na cidade nos próximos dois anos.

Investir energias na organização e abertura de espaços culturais alternativos, ligados a uma comunidade; as inúmeras oportunidades dos recursos audiovisuais (cinema, imagem e vídeo); as ações do Ministério da Cultura nos municípios, como o programa “Mais Cultura” e os Pontos de Cultura ou a criação de cooperativas culturais são exemplos de fronts culturais para Blumenau. Os produtores culturais, meu caso, devem caminhar na direção de projetos culturais que possam ter seqüência e desdobramentos.

Quanto ao poder público, este precisa abandonar o desinteresse pela área, enxergar as oportunidades de desenvolvimento que a cultura pode gerar. Não é só um caso de recursos financeiros: é importante ter capital social para coordenar essas ações. Falta investir em capacitação para os profissionais, públicos ou privados, que trabalham com a gestão e produção cultural. E os dirigentes dos órgãos de cultura devem ter capacidade técnica e sensibilidade e não meros candidatos derrotados acomodados em um cargo, como é nosso caso atualmente. Precisa, acima de tudo, se espelhar nas ações do conselho de cultura (que tem seus problemas e qualidades). São as ações do Conselho Municipal de Cultura na defesa do Fundo Municipal de Apoio a Cultura que asseguram a visibilidade dos novos personagens da cidade e da diversidade cultural, fruto das convergências trazidas pela contemporaneidade até este Vale Europeu.

Outro ator importante nesse processo é a Universidade. A Instituição deve contribuir na elaboração de pesquisas e mapeamentos sobre o tamanho e os números da cultura aqui em Blumenau (poderão ser subsídios importantes na hora de planejar, essa ferramenta não utilizada pelo poder público). A Universidade tem a obrigação de fomentar a diversidade, pois é o espaço público de excelência. É espaço de construção de conhecimento.

Por fim, o poder público tem o desafio de aceitar a diversidade e ir além: incentivá-la. Apostar na democracia cultural ao invés de privilegiar um lado da história. Tem que pensar a cultura como estratégia de qualificação social para o futuro

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[1] Artigo publicado no Jornal Expressão Universitária Número 05, página 08, de outubro de 2009, sob o título “Diversidade na Europa brasileira”.

[2] O autor é Cientista Social e produtor cultural.

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NAVALHA NA CARNE

Peça de Plínio Marcos teve sua primeira proposta construída para a IX Mostra Carona de Teatro diante de um período trágico para o município de Blumenau. Sua produção foi diretamente afetada pelos acontecimentos de novembro de 2008. O trabalho teve que ser paralisado diante da prioridade da realidade, mas após choque e o auxílio em novembro, os alunos novamente se uniram em prol da produção. Em menos de uma semana, a proposta inicial de Navalha na Carne foi finalizada e apresentada na Mostra Carona de Teatro.

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Crédito: Léo Laps

Contudo, o resultado deste extemporâneo mergulho fez ressurgir o intuito da construção do grupo. Esse novo convívio, que ante o tempo, nos imputou o desafio do abandono do cotidiano para a entrega total ao trabalho criativo. Esta entrega levou-nos a crer na possibilidade de um trabalho permanente entre os aspirantes atores, fundamos o VísCera Teatro.

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Crédito: Léo Laps

Navalha na Carne propiciou, em sua concepção inicial feita velozmente e com corpos ainda aturdidos diante da realidade, a busca pela fuga da realidade imediata rumo a uma construção mediada pela pesquisa de outro aspecto da realidade que emana sentimentos as vezes escondidos: os sentimentos que emergem da realidade de seres tão a margem que não os vemos diante da limitação de nosso leito.

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Crédito: Léo Laps

Diante dos personagens de Plínio Marcos os atores pesquisam os aspectos vívidos dos seres humanos imersos em condições socialmente condenadas, buscando no ator as expressões que dele emergem diante desta realidade para entregá-las ao público.

Os atores tentam fugir dos estereótipos para buscar, nas profundezas de sua singularidade, a elaboração dos personagens. Diante da aparente miséria, o VísCera Teatro procura a vida, procura a força do humano que resiste frente ao convite à anomia e ao desespero.

Imagem 061

Crédito: Léo Laps

Sinopse:

Navalha na Carne é uma peça de Plínio Marcos. É a história de três personagens em um quarto de bordel onde mostram suas vidas e expõem sua relação. A realidade do trio se entrelaça deixando aparecer diversos e paradoxais aspectos da condição humana. Retrato duro do submundo brasileiro em que as gírias, a violência das relações humanas, a situação opressora e a luta de cada personagem constroem um quadro cuja dramaticidade sobrevive ao tempo. A montagem do VísCera Teatro traz quatro atores revezando-se incessantemente nesses três papéis, onde cada um experimenta e coloca seus corpos, vividamente, em contato direto com os personagens da trama.


Ficha Técnica

Navalha na Carne

VísCera Teatro

Direção: Pépe Sedrez.

Atores: Cleiton Rocha, Fabrício Wilamoski, Lu de Bem e Maicon Keller.

Texto: Plínio Marcos.

Adaptação: Vis Cera Teatro

Iluminação: Pepe Sedrez.

Cenografia: Pépe Sedrez.

Sonoplastia: Pépe Sedrez.

Maquiagem: Adélia Eccel.

Arte Gráfica: Leo Kufner.

Preparação Corporal: James Beck.

Fotografia: Adélia Eccel e Leo Kufner.

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SOBRE O GRUPO

VísCera Teatro

“Se a situação é brutal, se nos desnudamos e atingimos uma camada

extraordinariamente recôndita, expondo-a, a mascara da vida se rompe e cai.”

Jerzy Grotowski

Histórico do Grupo

O corpo VísCera Teatro emerge da construção  proveniente das possibilidades expressas por alunos da Carona Escola de Teatro, lugar que tornou possível a aproximação de pessoas comumente distantes nos grupos cotidianos. Esta interlocução – possibilitada pela arte – permitiu que as experiências de cada aluno, oriundas de histórias bem diferentes, pudessem ser compartilhadas no momento criativo e emanou delas a produção artística que culminou no surgimento de um grupo.

Formação

VísCera Teatro surge com o diálogo entre pessoas com cotidianos bem distintoss: Cleiton Rocha divide seu cotidiano de bancário e estagiário de Psicologia na interação com Fabrício Wilamoski, vendedor e operário do ramo têxtil, com Maicon Keller, professor de História e Geografia e DJ e Lu de Bem, Psicóloga e Professora.

Profissionais pertencentes ao Mundo do Trabalho que – na interação dialética, mútua troca – buscam novas formas de perceber seu corpo e sua vida na produção artística. Destruir o corpo e os conceitos cotidianos, as separações contemporâneas com seus cortes de gênero, intelectualidade, classe e construir um novo olhar. Vislumbrar o mundo com novos olhos, com olhos estranhos, reais.

O Teatro

O teatro entra na história do grupo como possibilidade de união, como o elemento que amalgama singularidades, aparentemente, muito distintas. Entre os seus buscares, existe o desejo de transformação pessoal, tirar a máscara do dia-a-dia. Uma liberdade não possível em nossa era mecânica – demarcada por ordens, modas, preceitos e corpos presos à primária sobrevivência que nos ofusca o mundo, a natureza e a expressão. Expressamos a dúvida e o sacrifício, o teatro demarca a dúvida, o ator, o sacrifício.

VísCera Teatro

O nome VísCera Teatro emerge do diálogo entre os quatro atores e o diretor convidado e co-responsável pelo nascimento do grupo, Pépe Sedrez – que nos apresentou a obra de Grotowski, influência teórica expressiva na concepção do grupo – como forma de manifestar a entrega total do ator no trabalho criativo, de manifestar uma ação que visa alcançar, na relação com o público, certa proximidade provocadora, incitativa da entrega ao profundo singular de cada obra, remoer suas próprias percepções e – na relação com o ator – desnaturalizá-las, levando-as a outros pontos de significação. Desnudar-se para o público e convidá-lo também, a despir-se. O VísCera Teatro exprime relações nem lógicas, mecânicas, nem emocionais: viscerais.

Possível Inicio

Terror e Misérias no Terceiro Reich, peça adaptada da obra de Bertolt Brecht – produzida para exibição na XVIII Mostra Carona de Teatro ainda como grupo de alunos da Turma Avançada – constitui o primeiro marco histórico propiciador da consecução do grupo, com ela, o VísCera Teatro aproxima-se da proposta do Teatro Épico e, nesse mergulho em Brecht navega também na relação entre os atores durante o trabalho de construção e apresentação do espetáculo. A aproximação constante entre os alunos, o diretor-professor Pépe Sedrez e a atriz convidada Sabrina Martendal levou-nos a trocas e fazeres catalisadores de novas compreensões sobre o Teatro, entendendo sua inexorável interconexão com as relações humanas, com o fazer coletivo, o afeto e o compromisso.

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