Sobre nossa circulação.

O VísCera Teatro, em seu terceiro ano de existência, optou por iniciar o processo de circulação do espetáculo “A Grande Parada (ou o que ainda resta dela)” – projeto oriundo de nossa formação na Carona Escola de Teatro com a montagem de cinco cenas do texto “Terror e Miséria no III Reich ” de Bertolt Brecht, apresentada na VIII mostra Carona de teatro em 2008. Com recursos adquiridos via Fundo Municipal de apoio à Cultura, conseguimos circular com nossa produção, construída através de meios próprios e ajuda de parceiros como a Cia Carona de Teatro e o Grupo Detalhe de Indaial, além de todas as pessoas que passaram pela história do grupo e contribuíram para sua viabilidade.

O projeto foi realizado durante o período de 01 de março a 31 de maio de 2011 em 5 bairros do município de Blumenau (Itoupava Central, Fortaleza, Badenfurt, Progresso e Velha), totalizando 10 apresentações. O grupo realizou conversas com as pessoas ao término de cada sessão, momentos que permitiram uma aproximação entre atores e espectadores e conversas sobre teatro, arte, história, violência, discriminação, fome, condições de trabalho, nossa cidade…

“De onde vem a discriminação?”, perguntavam as estudantes, o grupo dialogava… você sabe a resposta? “Tem um lugar pra mim aí?” … haveria lugar pra ela ali? Que tipo de política cultural precisamos para que as pessoas possam estudar o que elas quiserem? Quanto tempo elas tem pra isso? Tem lugar pra mim aqui? Onde arte e vida se alcançam na escola? Como estão nossas escolas? Como as pessoas que constroem cotidianamente este espaço são compreendidas?

Nossas reflexões não conseguem atingir a totalidade dos desafios que o projeto de circulação nos impôs, assim, partimos da reflexão de Walter Benjamin em sua conclusão sobre o teatro épico e seus desafios:

 “Mas, se a torrente das coisas se quebra no rochedo do assombro, não existe nenhuma diferença entre uma vida humana e uma palavra. No teatro épico, ambas são apenas a crista das ondas. Ele faz a existência abandonar o leito do tempo, espumar muito alto, parar um instante no vazio, fulgurando, e em seguida retornar ao leito.” (Walter Benjamin. Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht in Magia e técnica, arte e política, São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 90)

Em meio a nosso assombro, tentaremos ser propositivos em relação às perguntas apresentadas e nossa vivência durante a temporada que passou. Os objetivos operacionais foram atingidos com êxito. A meta de alcance de apresentações em cinco bairros foi efetivada com tempestividade. A média de público foi positiva. Os debates com a comunidade suscitaram momentos de mútua relação.

Contudo, consideramos que a quantidade insuficiente de verbas e planejamento – tanto em relação ao Fundo Municipal de apoio à Cultura, quanto em relação ao desenvolvimento de infraestrutura comunitária – constituem um entrave importante para a efetiva ação cultural. A mediação, divulgação e apresentação – em termos gerais – dependem da ação dos grupos e da postura das direções comunitárias. Agradecemos aos trabalhadores das escolas e comunidades por onde passamos, sem eles, não teria sido possível.

Existem demandas reais nos bairros, nosso trabalho foi bem recebido, muitas escolas e grupos estão com suas portas abertas. Mas, com os recursos e a ação efetuadas até o momento, o trabalho de construção de Políticas Públicas de Cultura parece prejudicado. As críticas recorrentes acerca desta pauta apenas reforçam a crise pela qual passamos. Dos resultados das conferências municipais de cultura só vemos rascunhos e promessas – e alguns processos criminais.

Na área de educação as dificuldades não são menores. Os professores têm falado sobre isso, eles protagonizam uma ação histórica nesse momento, esperamos que suas reivindicações sejam atendidas, no mínimo. Acreditamos que trabalhadores e estudantes devem possuir os recursos e as relações necessárias não só para receber, mas para produzir arte.

Mediante nossa compreensão acerca de Blumenau nesse momento, parece-nos interessante a ironia de Bertolt Brecht: “Não se deve ser crítico demais / Entre sim e não / Não é tão grande a diferença / Escrever no papel em branco / É uma coisa boa, e também / Dormir e comer à noite / A água fresca na pele, o vento / As roupas agradáveis / o ABC / A defecação / Falar de corda em casa de enforcado / Não é apropriado / […] Ah / Quem é capaz de imaginar / Um céu de estrelas / Esse / Bem poderia calar a boca”.

A Fundação Cultural de Blumenau continua a ruir. Os estudantes insistem em voltar pra casa. Os professores lutam por educação. Nós continuamos aprendendo-fazendo teatro. Juntos, vamos tropeçando entre nossas vidas turbulentas de determinações e de boletos, de esperança e desespero. Mas acreditamos, sobretudo, que em cada encontro – entre nós, entre as vísceras, ou entre o mundo, entre a arte, entre as pessoas – aí é que reside nossas possibilidades mais humanas, mais promotoras de uma arte que seja vida.

Cleiton Rocha – publicado no jornal Expressão Universitária , ano 3 n. 22 de julho de 2011.

Sobre viscerateatro

Coletivo teatral.
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